Fecho os olhos. Respiro fundo. E, em vez da habitual sensação de leveza que inspirar me costumava trazer, hoje sinto um aperto. Um aperto no peito que sufoca, como se puxasse o coração para dentro de algo. Talvez para um emaranhado dentro de si mesmo cujo nome os cientistas ainda não definiram. E eu muito menos...
São onze e pouco da noite, de um sábado que em outros tempos era sinónimo de folia, de copos, de sorrisos. Presentemente, é um dia como todos os outros. Aliás, confesso que já perdi conta aos dias, tanto que em momentos dou por mim a pensar se estarei no início, a meio ou no final da semana.
Estou em casa faz uns largos dias, e as últimas saídas que fiz foram curtas e rotineiras. Saídas totalmente opostas às que se fazem por prazer e distracção. Ir às compras para casa é algo que faz parte do quotidiano, beber um café com familiares é algo cordial e quase obrigatório... E pronto. Resumo os meus momentos de ar-livre a estas actividades tão brejeiras e desinteressantes.
De resto, são horas e horas a olhar para as paredes. Deitada na cama, ora de barriga para cima, ora de barriga para baixo. Por vezes virada para a T.V., quase sempre desligada. Noutras, já nem tenho a noção de qual a posição que ocupo na cama. É como se estivesse colada a ela.
O simples facto de pensar em levantar-me para fazer qualquer coisa tira-me forças. Quanto mais, quando o faço na realidade... Sinto um cansaço tão extremo! Um cansaço de tudo e mais alguma coisa. E, ao mesmo tempo, um cansaço que não posso sentir, uma vez que é contraditório para com a minha actual situação.
Vivo apenas com o meu pai, pois a minha mãe faleceu há quase dois anos. E também não tenho irmãos, com grande pena minha. Portanto, tudo o que seja tarefas domésticas é algo que passa por mim. Algo que me revolta profundamente! Sendo eu tão nova, porque raio não posso usufruir da sensação de chegar a casa com a comida posta na mesa e acabada de confeccionar? Uma coisa que é banal aos olhos da maioria daqueles da minha idade, para mim é mera ilusão. Já foi. Já era. Já não é. E não é fácil... Não é fácil lidar com uma casa para gerir, quando nunca fui habituada a tal coisa.
A minha mãe era uma criatura como não existem muitas. A típica mãe-galinha, extremamente afectuosa e inegavelmente destemida no que tocava à obtenção do bem-estar do seu lar. De pulso firme, dona de uma garra e força inabaláveis, organizada, harmoniosa e sempre com um sorriso na cara ao fim de um dia exaustivo. Esta era a minha mãe! Uma super-mulher que dava conta do recado sozinha e que, honestamente, nos habituou mal por ser tão eficiente e capaz.
A minha mãe era uma criatura como não existem muitas. A típica mãe-galinha, extremamente afectuosa e inegavelmente destemida no que tocava à obtenção do bem-estar do seu lar. De pulso firme, dona de uma garra e força inabaláveis, organizada, harmoniosa e sempre com um sorriso na cara ao fim de um dia exaustivo. Esta era a minha mãe! Uma super-mulher que dava conta do recado sozinha e que, honestamente, nos habituou mal por ser tão eficiente e capaz.
Perdê-mo-la de repente, com um AVC hemorrágico que lhe tirou a vida em horas. Foi um choque. O desabar de uma família que ela erguia e mantinha no topo. Foi-se o nosso pilar sem sequer termos tempo para nos mentalizar, e, desde então, o nosso dia-a-dia tem sido uma constante batalha entre resolver situações e tentar viver e aproveitar a vida da melhor forma possível.
Até há pouco tempo foi o que fiz com o maior dos êxitos. Mantive constantemente a esperança de um amanhã melhor e fui aplicando vários dos ensinamentos por ela transmitidos para me ir desenrascando e crescer. Não podia ter sido mais bem sucedida, conseguindo surpreender-me a mim mesma em muitas ocasiões.
Quanto a outras questões que nunca cheguei a abordar com ela e que também me são necessárias, fui procurando-as por entre a observação alheia e em tentativas falhadas que fui aperfeiçoando, até conseguir alcançar o objectivo pretendido.
Sempre fui muito insistente, persistente e teimosa. Como tal, manti-me fiel a mim própria e autonomamente fui descobrindo e aprendendo o lado duro da vida, do qual até ali tinha sido protegida.
Contudo, obviamente que mais difícil do que suportar novos hábitos e rotinas é suportar algo que não se aprende, que não se adquire, que não se molda. Algo tão indefinido que se define por saudade. A falta. A dor da ausência. O vazio que a perda deixa em nós.
Contudo, obviamente que mais difícil do que suportar novos hábitos e rotinas é suportar algo que não se aprende, que não se adquire, que não se molda. Algo tão indefinido que se define por saudade. A falta. A dor da ausência. O vazio que a perda deixa em nós.
É esse buraco emocional que me levou a chegar ao ponto em que me encontro.
-Continuo amanhã...-
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